Quando se perde uma pessoa querida, nossos pensamentos e sentimentos se voltam para essa pessoa. Durante um tempo, todo o mais fica em segundo plano e somos absorvidos por lembranças do que se foi. Passamos por rituais de despedida como o velório, o enterro e a organização dos bens materiais que foram deixado por aquela pessoa. As familiares e amigos nos confortam, nos entendem e nos apoiam, falamos sobre nossa dor e somos compreendidos. Todo esse processo nos ajuda a elaborar a nossa perda.

Quando se perde um bebê que ainda não nasceu, não há lembranças, não há rituais de despedida e poucas pessoas entendem e apoiam essa dor. O aborto é um dos lutos mais invisíveis da nossa cultura. Porém, a perda gestacional é sofrida e sua intensidade não é maior ou menor dependendo do tempo de gravidez.

Ao se confirmar uma gravidez, a mulher já sente que há uma vida crescendo dentro de si, seu filho. São criadas expectativas em relação a sua vida com aquele bebê e as características desse filho (será menino ou menina? Como será sua personalidade? Com quem ele será parecido?). Quando ocorre um aborto, todas essas expectativas são tiradas os pais.

Cada mãe, cada pai, cada familiar irá vivenciar este luto de uma forma diferente, dependendo da sua história, das expectativas envolvidas e do momento que está vivendo. O sofrimento, apesar de ser diferente para cada pessoa, está sempre presente e costuma ser sentido com mais intensidade pela mãe. Em muitos casos, além do sofrimento, os pais vivenciam sentimentos como culpa, impotência e raiva deles mesmos e dos outros. O tempo de elaboração deste luto varia muito, pode durar dias, meses ou anos e, dependendo de sua intensidade, se não for acompanhando pode evoluir para um luto complicado e até mesmo desencadear uma depressão.

O que pode ajudar a elaborar o luto de uma perda gestacional?

O primeiro passo é falar sobre a perda. Muitas pessoas acreditam que devemos deixar de pensar na nossa dor, seguir logo em frente, esquecer. Mas não, quando guardamos uma dor profunda é bem possível que ela surja novamente em algum momento de nossas vidas, até depois de anos. Porém, quando você se permite vivenciar a dor, falar sobre ela, sofrer por ela as chances de elabora-la são bem maiores, mesmo que isso inclua uma ajuda profissional.

Também acredita-se que apagar qualquer mínima lembrança que possa existir do bebê, como se ele nunca tivesse existido não é o melhor caminho. Pelo contrário, se os pais tiverem ultrassons, roupinhas, fotos da gravidez, ou qualquer outra coisa que os permitam se aproximar desse bebê também pode ajudar bastante a passar pelo processo do luto, bem como utilizar esses recursos materiais para fazer um ritual de despedida.

A perda de uma bebê nunca é esquecida pelos pais.

Abaixo, deixo algumas dicas do que pessoas próximas podem fazer para ajudar os pais nesse processo:

1) Fingir que nada aconteceu com certeza não é a melhor alternativa. Telefone, mande mensagem ou visite pessoalmente (sem ser invasivo). Algumas pessoas que passam por esse luto preferem ficar sozinhas, mas outras querem desabafar e compartilhar seu sofrimento com pessoas queridas. Mostre-se presente e deixe que o casal escolha se quer ou não falar sobre o assunto. Se os pais optarem por compartilharem a sua dor, ouça sem julgamentos, sem tentar falar palavras bonitas que as vezes podem até atrapalhar e evite frases como “no mês que vem você tenta de novo ter outro”, “ainda bem que foi no começo”, “força”. Apenas ouça e demostre empatia pela dor. Deixe-os chorar e não tenha medo de chorar junto se sentir vontade.

2)  Depois de algum tempo as pessoas costumam ir sumindo supondo que os pais já estão se sentindo melhor, porém em muitos casos o luto demora a passar. Mostre-se presente não apenas nas primeiras semanas.

3)  Se os pais estiverem muito abalados emocionalmente, ofereça ajuda nos deveres  da casa, nas compras de supermercado, no preparo de refeições e  nos cuidados com os outros filhos. Dependendo do  nível de sofrimento é difícil para eles realizar as tarefas básicas do dia a dia.

4) Os homens também sofrem. Muitas vezes focamos nossa atenção nas mães e esquecemos dos pais. É importante também oferecer suporte à eles.

5) Algumas mães podem se sentir incomodadas com a presença de bebês ou grávidas, não entenda isso mal, mas é que realmente dói para elas entrar em contato com algo tão especial que “lhe foi tirado”. Portanto, se você está esperando um bebê ou tem um filho pequeno pergunte para ela se prefere que você se afaste neste momento e demonstre compreensão.

6)  Se você perceber que está muito difícil para os pais passarem por este momento, converse com eles sobre a possibilidade de procurarem uma ajuda profissional.

 

Paula Morano – Psicóloga Perinatal

CRP: 06/81332

 

 

 

 

 

 

 

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